Com mais tempo não escreveria muito mal
E melhor escrevia com mais paciência
Mas o tempo foge-me com displicência
E a paciência é tão vulgar como o que é divinal
Poucos peregrinos contemplam os meus manuscritos
E as exigências trascendentes regem a minha vida
Provas finais deixam a minha vivência na impossibilidade retida
Aproveito fugazes descansos como se tratassem de delitos
Dou descanso à minha pena e arrumo o tinteiro
Qual Sebastião, voltarei iluminado pelo luar
Numa noite de Verão, com o aperceber do regressar,
Do retorno da inspiração como de um tiro certeiro.
Desculpem lá, não é que só me estejam a ocorrer pensamentos mórbidos nem nada, é só que, por “mórbido” ter uma conotação tão pejorativa, muito raramente é explorado, quase como se fosse um tabu. E eu, sinceramente, acho que todos os temas têm potencial de análise. E a um tema com tanto potencial e tão subaproveitado como este não me faço rogado.
A acrescentar ao que tinha escrito no penúltimo post apenas a ideia de que o funeral tem, tanto quanto sei, a definição de “celebração da morte”, inverso e, no entanto, semelhante, ao aniversário, a “celebração da vida”. Por serem tão parecidos não deviam de ter repercussões idênticas? No que toca, por exemplo, à celebração anual da morte de uma pessoa? Foi esse o objectivo inicial, pois a ideia é não deixar a pessoa que faleceu cair no esquecimento e, consequentemente, desaparecer definitivamente do mundo.
E se é celebração devia de ser festivo, não é? Não ser aquele silêncio de morte (desculpem o emprego desta expressão idiomática, mas, tendo em conta o contexto, não resisti), ser antes como um aniversário. Certamente que, com esta afirmação, arranquei do rosto de alguns (que não hão-de ser muitos) dos meus leitores um esgar de indignação perante a minha afirmação. Pois que fique bem patente que não sou o único a pensar deste modo, pois houve um homem que não só se lembrou deste paradoxo como decidiu pôr em prática a sua versão de “celebração da morte”. Ainda naquele livrete da Superinteressante, assim se encontra escrito: “Em 1418, o italiano Ludivio Cortuso, de Paduá, teve um funeral memorável. No seu testamento, deixou escrito que deserdava quem chorasse durante o enterro, e que a sua fortuna fosse dividida entre quem se risse mais. O ataúde foi conduzido ao cemitério por mulheres com flores no cabelo, enquanto os filhos cantavam aleluias”.
Depois desta transcrição de um funeral caricato, deixo-vos com algo para pensar. Lembrei-me assim de repente, ao ouvir uma palestra na aula de Português sobre Vergílio Ferreira e o existencialismo. Ora, os existencialistas vivem em constante depressão pelo facto de terem consciência da condição humana (efémera e transcendentalmente controlada, sem haver possibilidade de a alterar), e saberem que o ser humano, como indivíduo, mais cedo ou mais tarde, morre. Acreditam, no entanto, que a morte é apenas parcial, física, pois este, dependendo do que faz em vida, pode perpetuar a sua existência ao deixar a sua essência. Há quem acredite que uma pessoa só morre quando por todos é esquecida.
De repente, ocorreu-me algo que iria complicar essa teoria: imaginando que uma pessoa escreve toda a sua vida, e a sua obra, em inúmeros livros, sem nunca os ter publicado. Imaginemos que morre, e que os seus amigos, com o passar dos anos, todos eles se esquecem da sua existência. Isto significaria que estava oficialmente, e a todos os níveis, morto. Mas imaginemos que os seus livros são encontrados, mostrados aos seus amigos, que, de súbito, lembram-se: “Ahhh! Agora me lembro quem é! Isso é do Asdrúbal! Coitado, já foi à tantos anos, que a sua alma esteja em paz…”.
Se foi esquecido, portanto morto de vez, física e espiritualmente, mas depois lembrado, já não estará morto, não é? Tratar-se-á de uma ressurreição da alma? Um assunto para ponderar :P
Mas é que estou mesmo perdido!...
Porque é que nunca nos dão mapas para estas situações?
A minha bússula aponta sempre para a direcção errada...
Podia pedir direcções...
Nah! O orgulho... a vergonha... gajo que é gajo desenrasca-se!
(Porque raio tem de ser assim?)
Sempre que vejo um obstáculo mudo de caminho
Não sei se será muito boa ideia...
Tantas vezes que penso e me apercebo:
"Já passei por aqui!"
Que caminho terei tomado quando por lá passei?
Não sei. Se o soubesse não o escolheria outra vez.
Se não aprendo com os erros estou condenado a repeti-los...
Desolado, olho à volta.
Não tenho ponto de referência nem ponto cardinal a seguir...
Limito-me a seguir o trilho mais utilizado
Talvez o seu destino me elucide...
Pedri direcções seria bom... mas não creio que me ajude
Tenho de começar a perceber sozinho que caminho devo de tomar!
Passa um conhecido.
Não o aflijo: assumo uma postura motivada
E esboço um sorriso confiante.
Mas, no fundo, no fundo, o problema persiste:
Estou perdido.
A ler um livrete da Super Interessante, intitulado de "O livro das origens" (que é, deveras, super interessante), deparei-me com a origem de algumas superstições inerentes aos rituais "post mortem". Depois de pensar um pouco, concluí que as simbologias de certos gestos podem mudar radicalmente de significado com o passar do tempo.
Se não vejamos: o costume de vestir preto no funeral não advém da necessidade de exteriorizar o luto; antes, resulta do medo dos nossos antepassados de serem possuídos pelo espírito do defunto. Vestidos de preto, estavam perfeitamente camuflados, e dessa forma o espírito não se alojava nos seus corpos.
Como é que medo (que soa um pouco a egoísta) passa a solidariedade?
Não vos convence? Então deixo-vos mais um exemplo: o colocar flores nos túmulos. Um ritual de demonstração de afecto, e de como que lembrança do defunto para pertetuar a sua alma, etecetra e tal. No entanto, a coroa de flores, sempre tão em voga, servia, originalmente, para aprisionar simbolicamente a alma, impedindo-a de regressar ao mundo dos vivos!
Como é que uma barreira anti-espíritos (ainda que sejam de pessoas amadas!) se transforma num bonito gesto de afecto?
Gostava de saber como as pessoas moldam o sentido dos rituais de certo modo tão negativos para se tornarem afectuosos e solidários, sem, no entanto, mudar em nenhum aspecto o ritual em si? Será que sentiram necessidade de transformar isso desse modo? Ou o significado simplesmente perdeu-se, no que toca ao senso comum, e decidiram, unanimemente, que o significado, indepentemente de qual teria sido o original, seria algo de positivo?
É que simplesmente não acredito que as pessoas dão azo a tal coisa sabendo que isso, se funcionasse, impossibilitava (se é que era possível) o retorno da alma que amava.
Está certo que os significados, como tudo, mudam com o tempo.
Mas tornar o significado o oposto do original é, no mínimo, invulgar, não?
Não tens cor
Não tens forma
És tão simples
És tão perfeita
Antes andava a adornar altares... algures... ali... Adorava? Ah, antes assim! Ateu, amável amigo! Ateu! A angústia ambígua... A ânsia aterradora... Aguentava, aguentava... Agora alimento animais, "atiro-lhes" alimentos assíduamente. Ah, amo andorinhas! Aladas a andar aeriamente... "Andar aeriamente"? Ai ai, atrofiado!...
Ah! A Ana Aníbal Atunes, aquela altruísta amiga, aparecerá aqui amanhã... Ah, amanhã... Amanhã acordarei apaziguado? Atormentado? Acalmado?...
Amanhece. A atroz alvez aparece. A aflição apodera-se-me. Acalmo-me, aceito-a, acaba a algazarra. Admiro a alvorada, atento, algo atónito.
Será que a frustração existe apenas devido à existência da sociedade?
Porque têm as pessoas de sofrer com o medo de mostrar emoções fortes?
Estarão os mais tímidos condenados a viver sem nunca ultrapassar um limiar (bastante baixo até) de intimidade social?
Será possível cair num espiral de más decisões a nível social? Como acontece com uma maré de azar? E existerá mesmo o azar, ou será este uma mera desculpa dos humanos para a sua inaptidão, estupidez e falta de discernimento?
Porque haverá pessoas que não conseguem ver que alguém fez sacrifícios por ela?
...
Escrever abre portas a novos mundos, não é?
Sendo assim, acabei de abrir a porta aos meus problemas.
Porque é que eles se recusam a sair??
Umas das coisas que sempre (isto remota ao dia em que soube das suas existências) me fascinaram são as síndromas e as fobias. Mas hoje apenas foco um dos aspectos, devido a um pensamento que tive há poucos dias.
Se formos ver um dicionário de fobias (na Internet há muitos), elas são mais que muitas, e muitas envolvem situações algo caricatas. Mas a questão não é essa.
A questão é que a definição de altofobia, por exemplo, consiste no medo mórbido a vir a sofrer dores físicas ou morais. Acho bem engraçado este. Há outro que é a algofobia, ou Acrofobia, que consiste no medo das alturas (por isso acho ridículo chamar-lhes “vertigens”. Vertigens são tonturas, portanto mais uma consequência do que propriamente a fobia em si)
E é possível encontrar também homofobia (fobia da homossexualidade) e xenofobia (fobia de outras etnias, acho eu… ou pessoas de outras nacionalidades).
E isso põe-me a pensar: Ora, fobia significa medo. Mas um xenófobo não demonstra medo de um imigrante. Antes demonstra troça, raiva, e mesmo agressividade que chega por vezes a vias de facto.
Isto apenas é possível porque tanto a homofobia como a xenofobia estão materializadas em seres humanos, e por ser algo material defendem-se dela (mais do medo que têm do que a ameaça que possa representar) atacando-a.
Não demonstram uma atitude violenta ou trocista em relação a outras fobias. Porquê? Porque é algo imaterial, que não pode ser visto, muito menos se pode interagir com. Não se vê um gajo no topo de um edifício a desferir socos na altitude, pois não? Nem uma gajo com feridas a dar murros nela para se defender do medo que lhe instila.
Assim termino. Espero que dê tanto que pensar como me deu a mim. E se querem MESMO algo que dê para pensar em, cá está diversão para uma tarde: descobri uma fobia no mínimo curiosa: Eleutherofobia = aversão e medo mórbido irracional, desproporcional persistente e repugnante da liberdade. À liberdade!! Incrível, não é? Há quem tenha medo de ser… livre? É caso para se dizer: dá Deus nozes a quem não tem dentes…
Bem, esgotei todos os textos que tinha em stock, portanto é provável haver demora até ao próximo post.
Deixo-vos com o poema que mais gostei de criar: a satisfação advêm da estrutura externa, repleta de aliterações nos dois primeiros versos de cada quadra. E fazer isso com o mínimo de sentido em termos de conteúdo e ainda rima foi trabalho árduo, mas numa hora e meia de intenso labor ficou concluído.
Espero que gostem, e obrigado por terem comentado!
Pequenas partículas de porcelana partidas
Frágeis e fracturados fragmentos de frustração
Tentativas falhadas de colagem, de reestruturação
Tristezas fugazes na memória mantidas...
Impossíveis interacções entre inteligência e inconsciência
Perfeitas permissas pertencentes às precoces
Crianças, ingénua mas sagazmente felizes
Quero readquirir a jovem felicidade com urgência...
Sagaz sapiência saturada de satisfação
Extraordinária experiência externamente expressa
Pelas rugas na face, pela falta de pressa
E pela felicidade consumada do mais velho ancião...
Não resisto; rendo-me, rogo por redenção
Careço a capacidade de caminhar calmamente
Sem me preocupar com o tempo, que passa rente
Mas sem me tocar, escapando por entre a mão.
Convivemos diariamente com expressões que nunca percebi por completo: as analogias entre cores e sentimentos.
É curioso como nós, enquanto única espécie capaz de estabelecer comparações e metáforas no discurso, achamos normal que certas cores sejam associados a sentimentos.
Exemplificando, posso referir o exemplo do vermelho estar associado à paixão, à morte e a sentimentos fortes. Até consigo perceber este: o sangue que corre no coração é vermelho; a chama (que é vermelha), está associada à paixão; muitas vezes da morte resulta derramamento de sangue (que é vermelho claro); o fogo, de tonalidade encarnada, provoca dor aguda, destruição ou até mesmo morte… enfim, podemos estabelecer diversas simbologias.
Já o azul como indício de frieza (não frieza material, mas adjectiva comportamentos em norma negativos; “Que frieza, nem me dirigiu um olhar!”) também se percebe: as paisagens glaciares têm uma tonalidade azul; o ser humano, quando exposto ao frio extremo, fica com tez azul, etc.
Mas nunca percebi muito bem o preto… O preto associado à morte. O que é preto que possa possivelmente estar associado à morte? A noite? Mas a noite não mata ninguém! Se matam mais há noite? É capaz, mas sendo apenas por esta razão acho insuficiente para o preto ser rotulado de morte. O único factor além deste que encontro é de cariz cromático: o negro como a ausência de cor. A cor associada à vida… Ausência de vida? Este deixa-me na dúvida se tem factores suficientes para ser considerado a cor necrológica.
Mas há um que considero ser completamente inapropriado, simplesmente absurdo: o verde como sinal de inveja. Verde de inveja. Mas não é uma expressão idiomática portuguesa, há também noutras línguas. Basta ver o Grinch, que foi criado como um bicho invejoso, que é convenientemente verde. Mas porquê? O que existirá que seja verde e que esteja associado à inveja? Simplesmente ultrapassa-me.
Se tiverem apreciações, críticas ou não e/ou respostas às minhas dúvidas agradeço o comentário :D